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Saúde e Nutrição da Mulher Negra: merecemos ser cuidadas!

Olá mulheres maravilhosas!


No artigo de hoje iremos abordar algo pouco falado, com pouca literatura científica sobre o assunto, principalmente quando se trata do processo de saúde/doença das mulheres negras de baixa renda, residentes em periferia de áreas urbanas. Vamos falar sobre a nossa saúde: a saúde das mulheres negras.





Quando falamos em saúde da mulher, em geral, ela sempre foi vista muito mais do ponto de vista reprodutivo, mas, atualmente, existem estudos demonstrando a importância de considerar as complexas interações entre o físico, mental, social e emocional, visto que possuímos condições e vulnerabilidades específicas e, devido a isso, riscos nutricionais e de doenças únicos, que incluem doenças crônicas que afetam muito a nossa qualidade de vida.


Além disso, a saúde da mulher é influenciada por diversos fatores, particularmente etnia, cultura e tradições, educação, nível socioeconômico, condições de trabalho e habilidades de enfrentamento que precisam ser considerados nas políticas públicas.


Então, já é possível perceber que, quando falamos na saúde da população negra, os desafios são muito maiores e passam por toda especificidade do contexto sócio histórico e da prática da desigualdade e do racismo presentes em todos os setores na vida dessas pessoas. Apesar da criação do Sistema Único de Saúde (SUS) e dos investimentos injetados nele, propiciando maior atenção à saúde da população negra e pobre brasileira e das políticas públicas desenvolvidas nos últimos anos, as desigualdades persistem em diversos setores da sociedade, contrariando um dos princípios fundamentais do SUS: a equidade.


No último censo demográfico (2022), apenas 10,6% da população se declarou preta, embora esse número tenha sido o maior dos últimos anos. Segundo dados do IBGE, em 2012, mulheres pardas e negras representavam 49,7% da população brasileira, enquanto as brancas totalizavam 48,7%.


Os problemas relacionados à saúde da população possuem especificidade. Alguns autores consideram maior prevalência de anemia falciforme por determinação genética; maior risco de doenças mentais como depressão, principalmente pelo sofrimento vivenciado; maior risco desnutrição devido a maior vulnerabilidade social; maior risco de agravamento para doenças crônicas não transmissíveis como hipertensão e diabetes; maior risco de mortalidade materna por condições adversas na gravidez e parto (o risco de óbito em mulheres negras é de 1,5 a 7,4 vezes maior do que em mulheres brancas) ; pior envelhecimento e maior incidência de HIV/AIDS. Quanto às condições de trabalho, há maior risco de adoecimento, principalmente devido ao racismo institucionalizado. Em mulheres negras é maior a incidência de ISTs/AIDS, mioma uterino, doenças cardiovasculares e situações de violência. A falta de acesso aos serviços de saúde, bem como o tratamento dificultado pelo racismo são os principais fatores que pioram o prognóstico das mulheres negras


A desigualdade que é construída ao nosso redor nos deixa muito mais vulnerável, uma vez que somos duplamente prejudicadas pelo racismo e pelo machismo, devido organização social na qual vivemos que, além do racismo, é baseada na desigualdade de gênero que nos impõem condições de subordinações.


Embora tenhamos vulnerabilidades e violações, somos pessoas de direitos e compartilharmos um legado permeado de luta, resistência, solidariedade e cuidado mútuo. Assim, deveríamos ter melhor acesso a saúde, educação, trabalho, segurança, cultura e também deveríamos ter equidade. Algo muito importante é que consigamos, por meio do ativismo e do enfrentamento, buscar a reversão de situações desfavoráveis e conquista de espaços. A nossa comunidade Mães Negras do Brasil é um belo exemplo de lugar de segurança, de solidariedade, de compartilhamento e de como podemos ser potentes, além de nos ajudar a entender que somos pessoas de direitos e que podemos ter acesso à melhores condições de trabalho, educação e cultura e de que também podemos ter equidade.


E a nutrição? A nutrição tem papel muito importante nesse aspecto pois os bons hábitos alimentares contribuem para uma melhor qualidade de vida e para a prevenção de doenças. Vale lembrar que uma alimentação saudável não precisa de modismos. Ela é acessível, valoriza a variedade, é harmônica em quantidade e qualidade, é naturalmente colorida e segura do ponto de vista sanitário. Ah, é também precisa ser saborosa né? Afinal, ninguém quer comer uma comida ruim!


Para superar alguns entraves decorrentes das situações desfavorável do contexto de nossa saúde, deixarei algumas algumas dicas valiosas:


  1. Procure conhecer o máximo sobre sobre o seu histórico familiar de saúde. Pergunte para seus familiares sobre as doenças pré-existentes, sobre as junções raciais e mantenha esse histórico anotado e leve sempre às consultas médicas e nutricionais.

  2. Sempre procure apoio em grupos afrocentrados, principalmente em questões que demandem a saúde mental. Isso ajuda muito no auto fortalecimento.

  3. Quando possível, procure por profissionais negros. Isso auxilia no vínculo entre profissional e paciente.

  4. Mantenha acompanhamento contínuo em saúde. Não desista se um profissional não atendeu a sua expectativa. É normal às vezes não nos encaixarmos em determinadas abordagens. Precisamos achar aquela que faz sentido para nós, para nosso sistema de crenças e valores.

  5. Não tenha vergonha de perguntar e tirar as suas dúvidas. Não sabemos tudo sobre tudo. Inclusive o profissional de saúde também precisa estudar e estar constantemente atualizado. Aliás, desconfie daquele que "Dr. Sabe Tudo".



Para finalizar o nosso artigo de hoje, vou deixar uma frase para que possamos refletir um pouco. Até mais e um grande abraço.




“Quando compreendemos como são produzidas nossas vulnerabilidades, e se estamos usando o quadro de direitos humanos para orientar os princípios para ação, assim como na tradição feminista negra, assume-se a integração de vários saberes. ”

(PRESTES, 2018)






Referências



J Am Diet Assoc. 2004;104:984-1001.


PRESTES, Clélia R. S. Estratégias de promoção de saúde de mulheres negras: interseccionalidade e bem viver. 2018. 206 f. Tese (Doutorado em Ciências- Psicologia Social) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-14112018-184832/publico/prestes_corrigida.pdf. Acesso em 12/10/2023.


SANTA ROSA PLF. Mulheres Negras, o cuidado com a saúde e as barreiras na busca por assistência: estudo etnográfico em uma comunidade de baixa renda [dissertação]. São Paulo: Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo; 2014. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/7/7141/tde-11082014-155050/publico/DISSERTACAO_VERSAO_CORRIGIDA_FINALIZADA.pdf. Acesso em 12/10/2023,

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1 Comment


Guest
Oct 16, 2023

Excelente esse artigo, vou recomendar a leitura para todas as mulheres negras que conheço e tenho acesso ❤️ informações valiosas

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