Memórias que cabem em uma caneca
Por Edna Neves, empresária fundadora da marca Sublimando Histórias
Você já parou para pensar em quantas histórias podem existir dentro de uma fotografia, de uma receita de família, de uma música ou até mesmo de uma caneca?
Pode parecer estranho falar de memória pensando em uma caneca.
Mas, para mim, uma coisa tem tudo a ver com a outra.

Memória não está apenas nos grandes acontecimentos.
Ela também está nas pequenas coisas do nosso dia a dia: naquela receita que a mãe fazia, na frase que a avó sempre repetia, na fotografia antiga guardada com carinho ou naquele objeto que nos faz lembrar de alguém querido.
Nós, mulheres negras, sabemos muito sobre guardar histórias.
Muitas vezes, nossas mães e nossas avós foram as grandes guardiãs da memória da família. Guardaram fotografias, receitas, nomes, costumes, ensinamentos e lembranças.
Algumas dessas histórias foram contadas muitas vezes.
Outras, infelizmente, ficaram pelo caminho.
E quantas histórias poderiam ter sido preservadas se alguém tivesse escrito, fotografado ou registrado?
Acredito que preservar nossas memórias também é uma forma de dizer: A nossa história importa!
Por muito tempo, falar sobre representatividade significou lutar para sermos vistas. E essa luta continua. Mas também precisamos olhar para dentro das nossas próprias famílias e perceber a riqueza das histórias que
carregamos.
Quem foi nossa avó?
O que ela fazia?
De onde veio?
Quais eram seus sonhos?
Que dificuldades enfrentou?
O que ensinou para seus filhos e netos?
Às vezes, descobrimos que conhecemos pouco da história de quem veio antes de nós.
É aí que entram os pequenos registros.
Uma fotografia pode preservar um rosto.
Uma receita pode preservar um sabor.
Uma música pode trazer de volta uma época.
E um objeto personalizado pode transformar uma lembrança em algo que permanece perto de nós.
Foi pensando nisso que comecei a enxergar as canecas de uma maneira diferente.
Uma caneca pode trazer a fotografia de alguém que amamos.
Pode ter uma frase que representa uma pessoa. Pode lembrar uma conquista, uma fase da vida, uma mãe, uma avó , um filho ou uma amizade.
Ela continua sendo uma caneca.
Mas passa a carregar uma história.
Foi dessa vontade de transformar lembranças em algo que pudesse ser visto, tocado e compartilhado que nasceu a Sublimando Histórias.
O nome não surgiu por acaso.
Eu queria criar produtos personalizados, mas queria que eles tivessem significado.
Queria que cada pessoa pudesse olhar para aquele objeto e reconhecer um pedacinho de si.
E, principalmente, queria que nossas histó rias também estivessem ali.
Porque quando colocamos uma mulher negra, uma família negra, uma criança negra ou uma referência da nossa cultura em um objeto do cotidiano, estamos dizendo que essas imagens pertencem a esses espaços. Que nossas
histórias merecem ser lembradas, celebradas e mostradas.
Talvez seja esse o verdadeiro sentido de personalizar alguma coisa: dar um significado que só aquela pessoa poderia dar.
Hoje, quando penso em uma caneca personalizada, não penso apenas em um produto.
Penso naquela mãe que vai tomar café todos os dias olhando para a fotografia do filho.
Penso na filha que transforma uma lembrança da mãe em presente.
Penso na avó que ganha uma caneca com a foto dos netos.
Penso em alguém que guarda uma frase porque aquela frase conta um pouco da sua história.
São pequenas coisas.
Mas são justamente essas pequenas coisas que, com o tempo, ajudam a construir a nossa memória.
E talvez preservar nossas histórias seja também uma maneira de cuidar do futuro.
Porque aquilo que registramos hoje pode ser lembrança para alguém amanhã.
Em 2026, decidi que este seria um ano de desafios e superação.
Depois de tantas experiências, descobertas e recomeços, estou me permitindo ocupar espaços que talvez, em outros momentos, eu nem imaginasse ocupar.
Escrever este texto é um desses desafios.
E talvez este artigo também seja uma pequena parte da minha própria história sendo registrada.
Porque enquanto crio produtos para ajudar outras pessoas a preservar suas memórias, percebo que também estou construindo e registrando a minha.
Hoje, tenho aprendido que memória não é somente passado. Memória também é legado.
E se uma fotografia, uma receita, uma música, uma caneca ou um azulejo puder ajudar alguém a lembrar de onde veio, de quem ama e da história que carrega, então ela já deixou de ser apenas um objeto.
Virou uma história que encontrou uma maneira de permanecer.
Porque algumas histórias merecem muito mais do que ser lembradas, merecem ser sublimadas!

Sobre a autora
Edna Neves é pedagoga, artista e empreendedora. Depois de mais de três décadas trabalhando no mercado formal,
encontrou no artesanato uma forma de continuar criando, aprendendo e se reinventando.
Em 2024, nasceu a Sublimando Histórias, marca de produtos personalizados criada a partir do desejo de valorizar memórias, identidade, representatividade e histórias, especialmente da comunidade negra.
Hoje, Edna segue transformando experiências em criação e encarando novos desafios, com a certeza de que nunca é tarde para começar algo novo!
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