Saúde mental não é individual. É racial, social e política
- Ana Tereza

- 15 de jan.
- 3 min de leitura
Cuidar da saúde mental não pode ser tratado como uma escolha individual descolada da realidade social. Para mães negras, o adoecimento psíquico está diretamente relacionado ao racismo estrutural, à sobrecarga de cuidado, à precarização da vida e à ausência de políticas institucionais de proteção. É a partir dessa perspectiva que se constrói a reflexão de Ana Tereza, servidora pública da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, pesquisadora em relações raciais e feminismo negro, mãe e membra Protagonista de Mães Negras do Brasil. Em entrevista exclusiva, Ana nos conta como a sua jornada pessoal e profissional moldou sua percepção sobre a relação entre saúde mental e identidade racial.
Desde o início da vida adulta, Ana Tereza compreendeu que saúde mental exige intencionalidade: terapia, autoconhecimento e o desejo de viver bem sempre estiveram presentes em sua trajetória. No entanto, foi ao aprofundar o olhar sobre as relações raciais que esse cuidado passou a ser também uma chave de leitura da estrutura social.
“É extremamente desgastante ser alvo constante do racismo e ainda ter que justificar a violência sofrida, já que a palavra da pessoa negra é continuamente descredibilizada.”
O racismo estrutural não apenas produz sofrimento emocional, mas também limita o acesso às condições materiais e simbólicas necessárias para o cuidado em saúde mental, deixando sequelas profundas na população negra.
Racismo institucional e saúde mental no sistema de justiça
Atuando na área criminal da Defensoria Pública, Ana Tereza vivencia diariamente os efeitos do racismo institucional. As mulheres que ela atende — mães, companheiras e filhas de pessoas privadas de liberdade — compartilham com ela a mesma cor de pele, traços e origem social.
“Foi só um desvio no percurso dos meus pais que fez com que eu esteja ali prestando o serviço, e não sendo atendida.”
Essa proximidade revela o quanto o sistema de justiça reproduz desigualdades raciais e produz adoecimento. Relatos constantes de humilhações, violências e desumanização atravessam essas mulheres e impactam também quem atua na linha de frente, especialmente mulheres negras.
Letramento racial como prática concreta de cuidado
Por meio do projeto Negras Leituras, Ana Tereza utiliza a literatura negra como ferramenta cotidiana de letramento racial e fortalecimento da saúde mental. O contato com produções intelectuais negras permite reconhecer padrões de opressão, nomear violências e, ao mesmo tempo, acessar narrativas de potência, pertencimento e dignidade.
“A literatura negra nos ajuda a entender que o que vivemos não é individual, mas parte de um mundo estruturado pela racialidade.”
Ao preencher lacunas deixadas pela historiografia oficial e resgatar personagens apagados da história, a literatura negra fortalece a autoestima e amplia o repertório emocional e político das pessoas negras.
Maternidade, autocuidado e redes de apoio
Inspirada em bell hooks, Ana Tereza afirma que o autocuidado é uma prática política de sobrevivência. Para mães negras, cuidar de si não é um ato egoísta, mas uma condição para permanecer inteira diante das múltiplas jornadas de trabalho, cuidado e militância.
As redes de apoio cumprem um papel central nesse processo. Espaços coletivos como Mães Negras do Brasil oferecem pertencimento, escuta qualificada, troca de experiências e reconstrução subjetiva.
“É na comunidade que aprendemos a amar e a ser amadas, praticando a empatia, a escuta e a solidariedade, elementos fundamentais para a saúde mental.”
Janeiro Branco: do discurso à responsabilidade institucional
Para que o Janeiro Branco seja mais do que um mês simbólico, Ana Tereza é enfática: não existe saúde mental possível sem considerar raça, gênero e classe. Ignorar essas dimensões significa esvaziar o debate.
“Não é possível falar de saúde mental sem considerar o racismo que trabalhadoras e trabalhadores enfrentam, o machismo, a violência doméstica ou, ainda, a dificuldade de manter qualquer equilíbrio emocional quando se precisa escolher entre pagar a conta de luz ou o gás.”
Na prática, promover saúde mental exige garantir condições dignas de trabalho e descanso, além de acesso efetivo à saúde física e mental ao longo de todo o ano, especialmente para mulheres negras e mães.
Leve essa reflexão para sua organização!
Ana Tereza atua na interseção entre direito, relações raciais, feminismo negro e educação, contribuindo para reflexões profundas sobre saúde mental, racismo institucional e cuidado coletivo.
Ela pode ser contratada para palestras, rodas de conversa, formações e debates em empresas, instituições públicas, escolas e organizações do terceiro setor.
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Mães Negras do Brasil realiza a curadoria e o agenciamento de palestrantes comprometidas com saúde mental, equidade racial e transformação institucional.
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Tem um livro que me ajudou muito a me reconectar comigo mesma que é A Terra dá, a terra quer - do mestre Nego Bispo