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Tratamento e acesso ao cuidado: Saúde mental negra como direito e prioridade

Por Thaissa Moreno | Arteterapia e Terapeuta cognitiva comportamental e sistêmica - Membra e protagonista Plataforma Mães Negras


Janeiro Branco nos convida a refletir sobre a importância de cuidar da saúde mental ao longo de todo o ano. Contudo, a realidade do Brasil mostra que, para muitas mulheres negras, esse direito ainda encontra barreiras profundas no acesso ao cuidado psicológico e terapêutico de qualidade, especialmente no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) e na implementação de políticas públicas eficazes.


Panorama atual: ansiedades e depressão no Brasil


Os transtornos mentais mais comuns no país são a ansiedade e a depressão. Dados nacionais mostram que mais de 26% da população brasileira já recebeu diagnóstico de ansiedade, com maior prevalência entre mulheres (cerca de 55% dos casos), e que cerca de 12,7% já receberam diagnóstico de depressão em algum momento da vida, com mulheres também em maior proporção que homens.

Esses números refletem apenas parte da realidade, pois estudos indicam que o Brasil é um dos países com maiores índices de ansiedade do mundo e com elevada prevalência de depressão na América Latina.


O acesso ao SUS e as lacunas no cuidado psicológico


Embora o SUS seja um direito universal, o acesso a cuidados de saúde mental de qualidade permanece desigual. Em muitas regiões, especialmente Norte e Nordeste, a oferta de psicólogos e psiquiatras é insuficiente para atender à demanda da população — principalmente em comunidades periféricas e territórios majoritariamente negros.

Além disso, muitas mulheres frequentemente só conseguem atendimento quando o sofrimento já se encontra em estágio grave. A falta de políticas públicas integradas que assegurem acolhimento qualificado, escuta ativa e continuidade de cuidado resulta em um ciclo de sofrimento crônico e invisibilizado.

Por que é urgente pensar em acolhimento racializado e igualitário para a comunidade.

Em muitos casos, a psicologia tradicional desconsidera as especificidades culturais, raciais e históricas que impactam a saúde mental de mulheres negras, de favelas e periferias. Uma abordagem que reconheça essas interseccionalidades, como a psicologia preta, racializada e antirracista é essencial para:

  • Validar experiências emocionais e afetivas que foram sabotadas por narrativas coloniais;

  • Reforçar estratégias de resiliência baseadas na ancestralidade e na coletividade;

  • Construir espaços terapêuticos que acolham os efeitos do racismo estrutural, da violência simbólica e da sobrecarga de cuidados no corpo e na mente. Essa visão amplia a compreensão do que significa “cuidar da mente”: não apenas tratar sintomas, mas fortalecer ligação com história, comunidade, significado e destino individual e coletivo.

Compreender a importância do coletivo e da ancestralidade como recurso terapêutico.

A ancestralidade oferece símbolos, narrativas e práticas que possibilitam a reconstrução do sentido de vida e pertencimento.

Em muitas tradições africanas, cuidar da mente equivale a olhar para o Orí (cabeça), para a consciência, escolhas e direção de vida. Orí é centro de percepção emocional, em diálogo com a comunidade e a história coletiva.

Esse olhar não reduz o sofrimento a um diagnóstico individual; ele reconhece que emoções, dores e forças são parte de uma trajetória que tem raízes e continuidade no tempo. Espaços como rodas de conversa, grupos de apoio, oficinas terapêuticas e coletivos comunitários podem funcionar como redes de apoio e de cuidado que atuam tanto na promoção do bem-estar quanto na prevenção de crises maiores.


Organizações e iniciativas que atuam no Brasil


Embora o número de iniciativas focadas especificamente em saúde mental negra ainda seja limitado, diversas organizações da sociedade civil apoiam populações em situação de vulnerabilidade e promovem ações que dialogam com políticas de acolhimento, equidade e direitos humanos.

Também existem, ONG, comitês e coletivos de psicólogos negros que promovem escuta, mobilização e advocacia em torno da saúde mental da população negra, fortalecendo estratégias de apoio profissional e comunitário.

Mães Negras do Brasil se constrói como uma rede de apoio e cuidado para mulheres negras mães, que atravessam a complexa conciliação entre trabalho, maternidade e vida pessoal.


A necessidade de políticas públicas efetivas e de redes de cuidado é crucial na vida de pessoas que atravessam múltiplas encruzilhadas sociais, raciais, de gênero e de classe. Como nos ensina Nego Bispo,

"a encruzilhada não é apenas um lugar de passagem, mas um espaço de decisão, sobrevivência e invenção da vida".

Quem nunca esteve em uma encruzilhada talvez não compreenda a complexidade de existir sob constantes atravessamentos.

Para mulheres negras, especialmente mães, essas encruzilhadas se multiplicam: o racismo estrutural, a sobrecarga do cuidado, a precarização do trabalho, o acesso limitado à saúde mental e a solidão social produzem impactos profundos no corpo, na subjetividade e no modo de existir. Diante desse cenário, o cuidado não pode ser pensado de forma individualizada ou descolada da realidade social. Ele precisa ser coletivo, territorial, ancestral e politicamente comprometido.


As redes de apoio comunitárias, os coletivos, as ONGs, os espaços culturais, o estar em comunidade, a arte, a oralidade e o resgate da ancestralidade se configuram como estratégias terapêuticas fundamentais, sobretudo quando o Estado falha em garantir acesso digno e contínuo à saúde mental. Nessa perspectiva, a psicologia afrocentrada, racializada e antirracista compreende o sofrimento psíquico não como fragilidade individual, mas como resposta a um sistema que adoece corpos negros historicamente.

Cuidar, portanto, é também um ato político.

É reconhecer que atravessar encruzilhadas exige suporte, memória, pertencimento e caminhos construídos em coletivo. E é na confluência entre políticas públicas, redes comunitárias e saberes ancestrais que se torna possível sustentar a vida e produzir saúde mental de forma ética, digna e reparadora.



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