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Entre choros e travessias: quando a felicidade também é ato político

Por Thaissa Moreno | Arteterapia e Terapeuta cognitiva comportamental e sistêmica - Membra e protagonista Plataforma Mães Negras


Existem muitos tipos de choro.


Há o choro da dor, o choro da ausência, o choro da violência. Mas também existe o choro da emoção, da realização, da continuidade da vida.


Nos últimos meses, tenho chorado de felicidade.


Chorei ao ver minha mãe, Silvia Nascimento, emocionada ao saber que será avó pela segunda vez. Ela chorou ao assistir ao vídeo da ultrassonografia da minha irmã, ouvindo o batimento cardíaco do bebê. Aquele som, simples, pulsante , carregava muito mais do que vida biológica. Carregava história. Carregava travessias. Carregava ancestralidade.


Minha mãe ficou órfã aos 14 anos. Não teve o privilégio de compartilhar com sua mãe os marcos da adolescência, as descobertas da juventude e os desafios da vida adulta. Aos 18 anos, engravidou de mim. E, ainda assim, não esteve sozinha

.

Ela contou com uma rede de mulheres potentes: minha bisa Adalgisa, tia Selma, sua tia e madrinha Edina, ambas minhas tias avós. Mulheres que sustentaram, cuidaram, orientaram. Mulheres que fizeram da coletividade um útero simbólico. Um espaço de acolhimento e gerando segurança.


Ao viver a gestação de Núbia, há 11 anos atrás, jamais poderei mensurar essa experiência de gerar um filho sem a presença de uma mãe ao lado. Minha mãe esteve comigo em quase todos os momentos, pois ainda não era aposentada. Na ausência dela, minha tia avó Selma esteve presente com muito carinho e atenção. Tive a presença das minhas primas, de outras mulheres da família e minhas amigas. Não consigo mensurar o que é gestar em solidão, sem rede de apoio. E é impossível não refletir sobre quantas mulheres vivem essa realidade diariamente.


Março, o dito “ mês das mulheres”! E o que ele não conta?


Aprendi, a partir do letramento racial, que o chamado Dia Internacional da Mulher — oficialmente reconhecido em 8 de março — não nasceu contemplando as mulheres negras. Enquanto mulheres brancas lutavam por direitos trabalhistas formais, mulheres negras já trabalhavam há séculos.


No Brasil colonial, mulheres negras vieram sequestradas da África, atravessaram o Atlântico em navios negreiros, muitas foram separadas de suas famílias, cônjuge e filhos. Muitas gestantes deram à luz e não puderam criar  ou amamentar seus bebês. Amamentaram os filhos das sinhás enquanto seus próprios filhos eram vendidos ou negligenciados. Seus corpos eram força de trabalho, eram exploração, eram violação.


Enquanto algumas mulheres precisavam pedir autorização ao pai ou ao marido para trabalhar, mulheres negras jamais tiveram o direito de não trabalhar.


Essa diferença histórica não é detalhe: é estrutura. Não há guerra de raças entre mulheres, é uma história que não foi dita. O perigo da história única como diz Chimamanda Ngozi em seu livro. 


O olhar racializado e territorial atravessa a história das mulheres no Brasil. A maternidade, para muitas de nós, sempre foi atravessada por luta, ausência, abandono forçado e violência.


Entre a felicidade e a memória da dor


Por isso, meu choro é ambivalente.


É um choro de felicidade ao ver minha irmã, hoje com 34 anos, mulher que também ajudei a maternar, vivendo sua gestação com dignidade, com apoio, com amor.


Mas é também um choro que carrega memória.


Memória das que não puderam criar seus filhos.

Memória das que foram violentadas e continuam sendo mortas.

Memória das que seguem, em pleno 2026, enfrentando estatísticas alarmantes de feminicídio, abandono, agressões físicas e psicológicas.


Vivemos tempos em que a violência contra a mulher ocupa diariamente as manchetes. E cada número tem rosto. Tem história. Tem família.


Por isso, quando celebro a vida que chega na minha família, não o faço de maneira ingênua. Celebro com consciência histórica. Celebro como ato político.


Rede de apoio é herança ancestral.


Se hoje posso viver a maternidade, direta ou indiretamente, com apoio, é porque mulheres antes de mim sustentaram esse chão.


Nós, mulheres no Brasil, somos herdeiras de redes invisibilizadas. Redes que nasceram nos quintais, nas cozinhas, nos terreiros, nas periferias. Redes que substituíram o Estado ausente. Redes que curaram feridas abertas pela colonialidade.


E é essa memória que me faz afirmar: não estamos sós.


Que possamos ampliar nossas redes. Que mulheres negras e não negras compreendam que, embora nossas histórias não sejam iguais, a luta por dignidade, segurança e respeito nos convoca ao coletivo.


Precisamos estar de mãos dadas para que mais mulheres possam chorar de emoção e não de medo.


Que nossos choros sejam de vida


Este artigo não é apenas um relato pessoal. É um convite à reflexão.


Quantas lutas uma mulher trava para gerar e criar um filho?

Quantas batalhas silenciosas acontecem dentro de casas, hospitais, tribunais e delegacias?

Quantas vezes a maternidade é vivida como resistência?


Que possamos transformar o choro de tristeza em mobilização.

Que possamos transformar a dor em política pública.

Que possamos transformar a memória em força.


Hoje, eu choro de felicidade.

Mas não esqueço.


E é justamente por não esquecer que celebro.


Que mais mulheres possam viver a gestação com apoio.

Que mais mães possam ouvir batimentos cardíacos sem medo.

Que mais famílias possam celebrar continuidades sem que a violência interrompa suas histórias.

Que nossos choros sejam, cada vez mais, de emoção, de realização e de vida.


E que nenhuma mulher precise chorar sozinha. Ou viver certas experiências sozinhas.



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2 comentários

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Texto
27 de mar.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Me emocionei lendo. Parabéns!

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Convidado:
25 de mar.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

O texto da psicóloga Thaissa Moreno reflete a força e a garra de uma guerreira VENCEDORA... PARABÉNS LINDA (vó Ilma) 👏🏾🌹😍😘

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