Por que mentoria não garante promoção?
Por Élida de Farias, Consultora em Aprendizagem Executiva e Desenvolvimento de Liderança, Mentora de Carreira, Psicóloga Organizacional e Palestrante
O que realmente decide sua carreira acontece numa sala onde você não está.
Você pode ter a melhor mentora do mundo e, ainda assim, não conseguir uma promoção.
Não por falta de esforço ou porque o conselho da mentoria era ruim. A decisão sobre quem avança na carreira não acontece numa conversa de desenvolvimento, mas sim numa sala onde você não está.

Conheça o Sponsorship, ou patrocínio profissional
Existe uma distinção que o mundo corporativo nomeia como sponsorship e que, por aqui, ainda circula de forma tímida sob o termo patrocínio profissional. A diferença em relação à mentoria é estrutural: a mentora orienta, escuta e abre perspectivas. Já o sponsor, ou patrocinador, é a pessoa que está na sala onde se decide promoções, bônus e projetos estratégicos, e ela coloca o seu nome em pauta quando você não está presente.
Carla Harris, que passou décadas no alto escalão do Morgan Stanley, resume o conceito
"Mentoria não será suficiente para garantir a promoção ou o aumento que você merece. Nós precisamos de patrocinadores".
Sob essa ótica, é curioso notar que empresas investem volumes consideráveis em programas de mentoria e, ao mesmo tempo, mantêm o patrocínio profissional de um jeito bem informal, o que por sua vez replica assimetrias que esses mesmos programas tentam combater no ambiente corporativo.
Os dados que temos são, em boa parte, norte-americanos (pesquisas com recorte específico de sponsorship ainda são escassas no Brasil), mas o cenário por aqui dá sinais de que o problema também está entre nós: a pesquisa Women in the Workplace 2025, da McKinsey, dá pistas sobre como o acesso desigual ao patrocínio profissional traz diferenças quando o assunto é, por exemplo, gênero:
Apenas 30% das mulheres em posições de entrada foram promovidas nos últimos dois anos;
Entre os homens que estão em posições de início de carreira, o número de promoções chega a 43%.
Segundo a Grant Thornton 2025, no Brasil, 36,7% dos cargos de liderança em empresas de médio porte são ocupados por mulheres. Parece um dado positivo, mas ele representa uma queda em relação ao pico anterior.
Mulheres são sobre-mentoradas e sub-patrocinadas
Crescer em representação sem redistribuir mecanismos de poder traz presença de grupos subrepresentados em posições de liderança, mas não constrói acesso a instâncias mais altas. E o patrocínio profissional é um mecanismo de acesso e de advocacia ativa em prol de outras pessoas no bastidor de uma empresa, onde as carreiras se movem de verdade.
Nancy Rothbard, professora da Wharton, aborda o fenômeno com uma ideia que deveria constar em toda discussão sobre diversidade corporativa: mulheres são sobre-mentoradas e sub-patrocinadas.
Isso quer dizer que recebemos abundância de orientação, mas escassez de representação nas conversas que acontecem em ambientes que realmente promovem pessoas.
Para quem lidera organizações ou está construindo sua própria esfera de influência, vale se perguntar: tenho compartilhado nomes de pessoas em salas onde esses nomes não chegariam sozinhos?
É com esse gesto que se redistribui o poder que nenhum programa de mentoria consegue substituir. Concorda?
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