Saúde mental não é benefício. É infraestrutura de negócio.
- Élida de Farias

- 19 de jan.
- 4 min de leitura
Por muito tempo, saúde mental foi tratada nas empresas como um tema secundário, individual ou até como um “problema pessoal” de quem não estava dando conta do ritmo. Para Élida de Farias, psicóloga, consultora organizacional, especialista em Diversidade, Equidade, Inclusão e Pertencimento (DEIP) e membra especialista da Mães Negras do Brasil, essa lógica sempre foi limitada e perigosa.
Desde o início de sua trajetória na psicologia organizacional, Élida compreendeu que saúde mental é um pilar do desenvolvimento humano e da sustentabilidade dos negócios. Ainda que o tema nem sempre tenha sido tratado com a seriedade necessária, a pandemia marcou uma virada definitiva.
“E foi após a pandemia, que eu acho que deixou de ser vista como um cuidado individual e passou a ser entendida de fato como uma infraestrutura de negócio. Porque se a gente não olhasse para a saúde mental, performance, retenção e sustentabilidade iam virar uma piada dentro da empresa.”
Medo, luto, incertezas e o colapso das fronteiras entre trabalho e vida pessoal escancararam algo que já estava presente: ambientes adoecedores não sustentam performance, inovação nem retenção de talentos.
O custo invisível da cultura da pressão
A crença de que alta performance exige pressão constante segue viva em muitas organizações. Para Élida, os efeitos são conhecidos e caros.
“Quando o desgaste emocional é uma norma, é uma coisa muito comum, todo mundo lida com isso, as pessoas começam a entrar no automático. Então, elas começam a perder a criatividade, vão perdendo conexão e a vontade de inovar. E isso é só uma das etapas pra chegar a um lugar de exaustão, de estafa emocional, de burnout de fato, que é essa doença causada pelo trabalho.”
Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que depressão e ansiedade custam mais de um trilhão de dólares por ano em produtividade no mundo.
No Brasil, os afastamentos por doenças relacionadas ao trabalho cresceram de forma alarmante nos últimos anos. A alternativa, segundo Élida, não é afrouxar a régua, mas trocar pressão por clareza, previsibilidade e ritmo sustentável.
Liderança, segurança psicológica e vulnerabilidade estratégica
Lideranças que constroem ambientes saudáveis não são as que nunca falham — são as que reconhecem sua humanidade. Para Élida, o primeiro sinal de uma liderança comprometida com saúde mental é a curiosidade genuína pelas pessoas, não apenas pelos resultados.
“Quando eu falo de vulnerabilidade, eu entendo que é o grande divisor de águas para lideranças. É a capacidade que você tem de usar a própria vulnerabilidade de forma estratégica para gerar também uma empatia com o time, para que as pessoas se sintam mais confortáveis para se abrir”
Essa postura está diretamente ligada à inclusão, à valorização da diversidade e à construção de inteligência coletiva. Não por acaso, o Projeto Aristóteles, do Google, apontou a segurança psicológica como o principal fator de alta performance em equipes.
DEI e saúde mental não podem estar em gavetas separadas
Élida é direta: não dá para falar de saúde mental sem falar de quem paga a conta mais alta.
“Na prática, a falta de inclusão é um fator de risco psicossocial. Então, o racismo, o machismo, o capacitismo e a homofobia, por exemplo, vão gerando e aumentando o que é conhecido como estresse de minoria.”
Ainda assim, muitas empresas seguem tratando DEI e saúde mental como agendas desconectadas: um comitê de diversidade de um lado, um aplicativo de meditação do outro. Para Élida, pertencimento precisa deixar de ser algo “bonito” e passar a ser indicador de gestão.
“Acho que pertencimento ainda é a melhor prevenção que existe quando a gente fala de saúde mental. Porque quando eu sinto que posso baixar a guarda e ser quem eu sou, o meu cérebro para de gastar energia tentando se defender e começa a ser mais criativo.”
Janeiro Branco como compromisso — não como campanha
Se o Janeiro Branco for usado como ponto de partida para se tornar um compromisso real ao invés de apenas uma campanha pontual, Élida aponta três mudanças inegociáveis:
Sair da cultura do ‘aguentar firme’ e construir agendas realistas e previsíveis.
Atrelar saúde mental às metas da liderança, incluindo indicadores como clima, absenteísmo, rotatividade e inclusão.
Letrar lideranças em segurança psicológica, ensinando escuta, identificação de sinais e encaminhamento responsável.
“Se o Janeiro Branco servir para pactuar essas três coisas o resto do ano, vai ser mais fácil para essa empresa navegar com muito mais saúde e menos apagar de incêndios.”
Maternidade negra: de penalidade a potência
Para mulheres negras, a maternidade não é apenas uma transição pessoal, é um filtro brutal do mercado de trabalho.
“Muitas vezes a maternidade funciona como uma espécie de teto de vidro, que é reforçado por camadas e camadas de racismo e falta de suporte”
Mães negras realizam mais horas de trabalho de cuidado não remunerado, enfrentam maior estagnação salarial e são empurradas com mais frequência para a informalidade. O estereótipo da “mulher negra forte” agrava ainda mais o cenário, mascarando a necessidade de apoio.
Ainda assim, Élida provoca uma virada de chave fundamental:
“Eu gosto de pensar que o nosso maior desafio agora é exigir que as organizações, que as empresas parem de ver a maternidade negra como risco ou como um custo e passem a vê-la como uma potência intelectual e criativa.”
Negociação, gestão de crise, empatia estratégica e tomada de decisão sob pressão são competências desenvolvidas na maternidade, e são extremamente valiosas para qualquer organização.
É nesse contexto que Mães Negras do Brasil se afirma como espaço de construção, não de espera.
“A gente não está mais pedindo licença para ocupar esses espaços, que a gente está construindo os nossos espaços e não apenas construindo os nossos, mas a gente também está convidando outras mães, outras mulheres e o mercado vai evoluir junto com a gente”
Leve essa conversa para sua organização
Élida de Farias atua há mais de uma década com desenvolvimento de lideranças, cultura organizacional, saúde mental no trabalho e DEI, no Brasil e no exterior.
Ela pode ser contratada para palestras, formações, consultorias e programas de desenvolvimento, apoiando empresas e instituições a integrarem saúde mental, equidade e performance de forma responsável.
A Plataforma Mães Negras do Brasil realiza a curadoria e o agenciamento de especialistas comprometidas com transformação institucional.
Entre em contato e leve esse debate para sua organização!






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