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Querem uma mãe, mas não querem seus filhos – uma reflexão sobre maternidade e empreendedorismo real

Era uma reunião importante.

Sala cheia, cliente ansioso, todos esperando falas de abertura empolgantes e bem articuladas.

Semanas de preparação, time alinhado, falas treinadas.

Tudo para ser perfeito.

Na mesma semana, minha cria fica doente.

Colo, dengo, resfriado, preocupação.

E, para minha sorte, a rede de apoio não estava presente.

Finjo normalidade, aperto o colete à prova de balas, dou um banho de óleo na armadura e enfrento aquela semana desafiante, equilibrando a maternidade e o empreendedorismo.


Coloco a cria no carrinho e me sento para a reunião.

Checo novamente se está tudo bem:

respirando? Sim.

Dormindo bem? Também.

Ok.

Não tem como dar errado.

Vamos lá.


Abro a câmera, sorriso no rosto, plano de fundo com a marca da empresa. O cliente

inicia sua fala de abertura.

Chega a minha vez.

Microfone aberto: gritos, choros, desespero.

A cria acorda desesperada querendo algo que só eu poderia dar.


Por um segundo, me vejo sem saber o que fazer, mas parece que o nosso cérebro de mãe

já foi treinado para atuar em situações críticas em tempo recorde. Pego a cria no colo,

acalmo, e resolvo usar da boa honestidade: “Desculpem, meu bebê está em crise”.

"Passo a bola" para o meu time conduzir. Nada ensaiado. Nada preparado.


Fecho a câmera. Respiro. Acalmo.

Acolho, a ele e a mim.

Volto para a reunião, com a cria no colo, câmera aberta.

Sim, sou mãe.

Sim, isso é uma criança.

Sim, ela chora, grita, come, dorme e existe.

Sim, imprevistos acontecem.

Sim, tem dias que não tem rede de apoio e não tem como cancelar.


Quantas mães não vivenciam essa realidade?


A sociedade patriarcal e eurocêntrica constantemente nos exige nos encaixarmos em um

padrão de maternidade que não contempla mulheres negras. Em um país onde temos

mais de 11 milhões de mães que criam os filhos sozinhas, a rotina de trabalho de uma

mãe não é uma novela do Manoel Carlos e nós, com certeza, não somos uma Helena.

Além de ser empreendedora, eu sou mãe. Esses papéis não se separam, eles andam

juntos, fazem parte de quem sou. Exigir que sejamos mães sem filhos é querer uma

maternidade que não existe, é ignorar a nossa existência e nossas possibilidades de

continuarmos trabalhando e vivendo com a maternidade.


Essa reflexão me faz pensar o quanto ainda precisamos de acolhimento, de compreensão

e de lideranças e pessoas capacitadas e dispostas a entender e acolher a realidade de

mulheres que empreendem, que trabalham e são mães.

É importante que as organizações e a sociedade como um todo reconheçam e apoiem a

realidade das mães empreendedoras.

Ao integrar políticas de acolhimento e flexibilidade, promovemos não apenas a igualdade, mas também um ambiente de trabalho mais humanizado e produtivo.

A verdadeira transformação ocorre quando aceitamos e valorizamos a dualidade de ser mãe e profissional, permitindo que ambas as identidades coexistam e possam crescer. Juntas, podemos construir um futuro onde todas as mães tenham o suporte necessário para alcançar o sucesso em todas as áreas de suas vidas.


Aqui em Mães Negras do Brasil, esse futuro está sendo construído no presente, através

do acolhimento, suporte e oportunidades.

Iniciativas como essa e tantas outras lideradas por mulheres e mães se destacam pela coragem de ocupar espaços de poder e decisão para promover maior inclusão para mulheres que são mães, principalmente mulheres negras.


Diante dessa grande missão, é importante perguntar:

Onde você está nesse futuro?

Qual o papel da sua empresa ou iniciativa perante esta causa?

Vamos pensar sobre isso?



Pamella Kristine

Rio de Janeiro

2024

58 visualizações3 comentários

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3 Comments


Que texto Real, todas nós Mães já passamos por isso em algum momento, essa dualidade entre ser Mãe e também ser profissional, continuar ou retomar sua carreira e os impeditivos que a própria sociedade nos coloca a cada fase. Seguimos resistindo. Gratidão pela Partilha!

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Obrigado por compartilhar esse texto, está é uma reflexão urgente. Dói em nós, mães negras que trabalham e não tem , ou tem pouca, rede de apoio. É surreal o malabarismo que realizamos para seguir e existir no mundo profissional. Seu texto traduz muito bem o meu sentimento e meu desafio.... Obrigado Pam!

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Amada Pamella Kristine, mto Grata por compartilhar esse texto que tanto diz de nós, de nossas existências que são ímpares, mas onde as desconsiderações com as nossas formas de estar nesse mundo são as mesmas.

Sigamos sendo insubordinadas e nos apoiando.

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