Janeiro Branco: por que saúde mental é um tema de governança corporativa
- Priscila França

- há 2 dias
- 3 min de leitura
Quando falamos em governança corporativa, muita gente imagina algo distante: regras, documentos, conselhos fechados e decisões que parecem não ter relação com a vida real de quem trabalha nas organizações. Mas, na prática, governança é algo muito mais próximo do que se imagina.
Essa é a reflexão trazida por Priscila França, especialista em Governança, Risco e Compliance, pesquisadora das relações étnico-raciais e membra do Mães Negras do Brasil
É sobre como as decisões são tomadas, quem pode decidir, o que é considerado aceitável e quais consequências essas escolhas geram. E é exatamente nesse ponto que a saúde mental entra.
Ela aparece no dia a dia, nas metas que são definidas, na forma como líderes tratam suas equipes e no que a organização escolhe enxergar ou ignorar.
“Ambientes que adoecem não surgem por acaso. Eles são construídos a partir de decisões repetidas.”
Quando o adoecimento deixa de ser individual e passa a ser falha de governança.
O adoecimento no trabalho costuma ser tratado como algo pontual, quase pessoal. Mas metas impossíveis, culturas de silêncio, relativização de assédios e excesso de cobrança não são acidentes: são escolhas que foram sendo normalizadas.
Priscila afirma que quando essas práticas passam a fazer parte da cultura organizacional, deixam de ser apenas questões de gestão e se tornam decisões de governança, porque afetam diretamente o futuro da organização.
“Uma empresa que fecha os olhos para o adoecimento está assumindo riscos: perde pessoas, perde confiança, perde reputação.”
Governança, nesse sentido, também é sobre cuidar do caminho, não apenas do resultado.
Saúde mental como risco organizacional real
Ainda é comum que o conceito de risco nas organizações esteja restrito a dinheiro, processos e contratos. Mas ambientes onde as pessoas têm medo de falar, de errar ou de existir como são também representam riscos concretos.
A observação que Priscila enxerga é que:
Racismo, desigualdades e exclusão impactam diretamente a saúde mental, o clima organizacional e o desempenho das equipes. Onde não há segurança psicológica, surgem afastamentos, conflitos, rotatividade e perda de talento.
Olhar para a saúde mental como risco não significa desumanizar o tema
“Olhar para a saúde mental como risco é assumir responsabilidade pelas consequências das decisões organizacionais.”
Compliance como cultura de cuidado
Quando o compliance é tratado apenas como regra, ele se torna burocrático. Mas quando passa a ser entendido como cultura, transforma-se em uma ferramenta de proteção.
Isso acontece quando saúde mental, equidade racial e segurança psicológica deixam de ser projetos paralelos e passam a fazer parte das decisões do dia a dia.
E isso muda profundamente a forma como as organizações funcionam
“O poder deixa de ser exercido apenas para controlar e passa a ser usado para proteger pessoas.”
Janeiro Branco: da campanha à prática
Para Priscila, o Janeiro Branco só ganha força quando deixa de ser campanha e se torna revisão prática.
“A pergunta não é ‘o que vamos postar?’, mas ‘o que precisamos rever?’”
Rever metas, estilos de liderança, formas de cobrança, tratamento de conflitos e observar dados como afastamentos, pedidos de demissão, denúncias e clima organizacional são passos fundamentais.
Quando a saúde mental entra na rotina de observação da organização, ela passa a integrar a estratégia.
Maternidade negra e o futuro da governança
Priscila reflete, que a ausência de mães negras nos espaços de decisão revela muito sobre o tipo de futuro que as organizações estão construindo.
“Não se trata apenas de diversidade, mas de perder visões importantes sobre cuidado, risco, sobrevivência e gestão da vida real.”
Nós, mães negras desenvolvemos habilidades profundas de organização, adaptação e tomada de decisão em contextos complexos. Ignorar essas vivências limita a qualidade das decisões e enfraquece a governança.
Governança forte é aquela que reconhece que incluir diferentes vivências melhora a qualidade das decisões e fortalece as organizações.
Leve essa conversa para sua organização
Priscila França atua na interseção entre direito, governança corporativa, compliance, gestão de riscos e equidade racial, apoiando empresas e instituições a construírem ambientes mais éticos, seguros e sustentáveis.
Ela pode ser contratada para palestras, formações e debates estratégicos voltados a diretorias, conselhos, áreas jurídicas, compliance e ESG.
Mães Negras do Brasil realiza o agenciamento de especialistas comprometidas com transformação institucional.
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